16 novembro, 2009

Um cordel para falar de transplante

Um cordel para falar de transplante

Após acompanhar o filho por mais de dois anos na fila de doação por um rim, pai resolveu contar essa história em versos
Juliana Colares
julianacolares.pe@dabr.com.br


Os versos acima são de um homem que conhece de perto a dor de quem necessita de um transplante. De um pai que viveu os piores momentos de sua vida quando assistiu o filho desenvolver uma insuficiência renal e depender da hemodiálise para sobreviver.

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Médico Ernando Alves de Carvalho, ao lado do filho, Ernando, deixa uma lição de esperança. Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A/Press

 De um médico que dedica a vida à saúde pública e que transforma suas rimas em informação. Daquelas que emocionam. E salvam. Os versos são de um cordel escrito por Ernando Alves de Carvalho, o pai de Ernando Filho, 37 anos, transplantado no dia 28 de abril deste ano. Pai, também, de Eduardo José, 31, o doador. Personagens de uma história rimada que recebeu o nome de Fila da esperança, título de uma reportagem sobre transplantes publicada no Diario de Pernambuco apenas dois dias antes da cirurgia que libertou Ernando Filho da diálise. E devolveu a paz ao pai que tanto sofreu.

Confira a animação do cordel

Nas estrofes, Ernando, o médico, conta uma saga. E deixa uma lição de solidariedade e, sobretudo, de amor. Em 1997, seu filho mais velho descobriuque tinha uma doença chamada glomerulonefrite, que pode fazer com que os rins percam gradativamente a capacidade de filtrar o sangue. Foi dado início a um longo tratamento conservador à base de remédios, na tentativa de controlar a inflamação dos rins. Sem sucesso. A função renal foi parando aos poucos e em junho de 2007 Ernando começou a apresentar sintomas que nunca tinha sentido antes: cansaço, náuseas, enjôo, dores na barriga, falta de apetite. "Passei quatro dias sem vontade de comer ou beber. Só queria ficar deitado", contou. Naquele mês, tiveram início as sessões de hemodiálise.

"Doar órgãos ou tecidos é grande prova de amor que vai salvar uma vida ou diminuir a dor de quem jamais desespera e na longa fila espera esse gesto salvador"
Trecho do cordel

Engenheiro mecânico e professor de duas escolas em Salgueiro, Ernando Filho teve que largar o trabalho. Sua agenda estava cheia. Tinha hemodiálise três vezes por semana, quatro horas por dia. Sem contar com a viagem de uma hora e meia entre Salgueiro e Barbalha, no Ceará, onde fez a maior parte das sessões. Foi assim durante mais de dois anos. Festas de Natal não eram mais as mesmas. Havias restrições por todos os lados e a hemodiálise nunca deixava Ernando ficar no Recife, com os pais, o tempo que quisesse. E como se não bastassem os incovenientes do tratamento, seu organismo ficou debilitado e surgiram complicações. Ernando teve um derrame pleural, que ocorre quando há acúmulo de líquido em excesso entre as membranas que recobrem os pulmões. Foram 40 dias de internamento e um outro obstáculo a vencer: a depressão. 

Mas o drama finalmente teve um final feliz, como diz o pai do professor no seu cordel. Sem doador cadáver, a solução veio da maior fonte de força e esperança de Ernando Filho: sua família. "Logo que os rins dele paralisaram, a família decidiu que alguém ia ser o doador", contou Ernando, o pai. E assim, foi. Eduardo, o caçula, deu sua maior prova de amor pelo irmão mais velho. Se antes, quando eram crianças, eles dividiam o mesmo quarto, hoje, partilham um bem muito mais valioso. A vida. Ernando Filho voltou a trabalhar neste mês. Eduardo, que seguiu a carreira do pai, retomou suas atividades cerca de cinco semanas apósa doação. Hoje, os dois levam uma vida normal. Como era antes.

"Este belíssimo gesto / por meu filho praticado / de doar pra seu irmão / o rim que foi transplantado / foi grande prova de amor / que tem bastante valor / e deve ser imitado", diz outro trecho do cordel, um símbolo da alegria e da necessidade de um pai (ou seria de um médico?), de, por meio da sua história, sensibilizar as pessoas para uma causa tão nobre. É o desabafo de um homem que não conteve as lágrimas quando viu seus dois filhos entrarem na sala de cirurgia. Um com a missão de dar nova vida ao outro. E a solidariedade de um homem que imprimiu e distribui gratuitamente 1 mil exemplares do livreto, dando continuidade à missão que assumiu quando se formou médico. A de salvar.