03 agosto, 2009

A Questão Familiar no Processo de Doação de Órgãos e Tecidos

DOMINGO, 2 DE AGOSTO DE 2009

A Questão Familiar no Processo de Doação de Órgãos e Tecidos

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As causas da não efetivação da doação estão relacionadas à instabilidade hemodinâmica e metabólica dos doadores, ao não reconhecimento ou atraso na determinação da morte encefálica e ao consentimento familiar. O “sim” dito pela família na doação de órgãos é uma questão extremamente delicada, e é o tema desta entrevista com o Prof. Edvaldo Leal de Moraes, enfermeiro e vice coordenador da Organização de Procura de Órgãos do HC – FMUSP.

Por Vanessa Navarro


Nursing - Como o profissional de enfermagem pode auxiliar os demais profissionais de saúde para definir o processo de doação de órgãos e tecidos?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - A solicitação da doação de órgãos e tecidos deverá ser realizada por um profissional de saúde habilitado. A pessoa mais adequada para essa função será aquela que passou por treinamento especializado referente ao processo de doação-transplante. O aspecto mais importante no momento da entrevista consiste em informar e esclarecer, os familiares do potencial doador sobre a possibilidade da doação dos órgãos e tecidos para transplante, nesse momento o profissional de enfermagem tem um papel importante. No Brasil, a Lei 10.211 de 2001 estabelece que a retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo de pessoas falecidas para transplantes ou outra finalidade terapêutica, dependerá da autorização do cônjuge ou parente maior de idade, obedecida a linha sucessória, reta ou colateral, até o segundo grau, firmada em documento subscrito por duas testemunhas presentes à verificação da morte.

Nursing - Existe um roteiro a ser traçado para que a entrevista tenha um resultado satisfatório?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - Sim. A entrevista é semiestrutura e direcionada para a possibilidade da doação dos órgãos e tecidos para transplante. O conteúdo da entrevista está centrado na morte encefálica. O profissional de saúde deve seguir um roteiro norteador no momento da entrevista. A Central de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo orienta que a entrevista siga o modelo apresentado no quadro 1.

Nursing - Quais são os pontos importantes dessa entrevista familiar?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - Em primeiro lugar é preciso que a família do potencial doador entenda que morte encefálica é morte. Em segundo, a capacitação do profissional que vai realizar a entrevista, a clareza da linguagem, a objetividade, a transparência e acima de tudo, o respeito aos princípios da ética e da legalidade.

Nursing - A família já sofre muito com a perda de um ente querido, e se depara com a decisão de doar ou não os órgãos e tecidos. Como o enfermeiro deve trabalhar com o lado emocional dessa família?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - A morte provoca na família do potencial doador diversos sentimentos e emoções, como tristeza, sofrimento, desespero, apatia, ansiedade, raiva, sensação de impotência, sentimento de culpa; sendo difícil admitir a irreversibilidade da morte encefálica, considerando-a como um fracasso da terapia e tornando mais difícil o ato de solidariedade através da doação de órgãos. Assim, o tempo dado para tomada de decisão e o apoio oferecido à família são de fundamental importância no processo de doação. O paciente que evolui para morte encefálica, na maioria das vezes, ocorre de forma muito rápida, não possibilitando tempo para o familiar assimilar a situa ção. No processo de doação e transplante, a família é o elemento principal, e a transparência desse processo só ocorre quando a família é devidamente informada e esclarecida. O enfermeiro deve oferecer apoio aos familiares, independente da manifestação a favor ou contrária à doação. A postura ética e o respeito diante do sofrimento da família é um dever do profissional. 

Nursing - Quais são os fatores que influenciam favoravelmente à doação?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - Manter os familiares sempre informados e esclarecidos sobre a evolução do quadro do ente querido; o bom relacionamento entre a equipe multiprofissional e a família; a assistência médica oferecida ao paciente durante a internação e, principalmente, o conhecimento prévio da vontade do falecido. Os trabalhos mostram que as razões para doar ou não são complexas. O altruísmo, embora importante, não parece ser suficiente para motivar a doação de órgãos. O conhecimento das preferências do paciente - em vida - é importante no momento de decidir. Além disso, o suporte emocional, a assistência oferecida aos familiares e a informação sobre o processo de doação parecem ser essenciais para encorajar a atitude da doação.

Nursing - Como o profissional de saúde deve reagir diante do atraso na determinação do familiar?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - O nosso papel não é convencer a família a doar os órgãos e tecidos para transplante; mas sim informar e esclarecer sobre a possibilidade da doação, além de oferecer apoio e conforto diante da perda. A doação não deve adicionar mais sofrimento aos familiares que estão vivenciando a trágica situação de perder um ente querido. Cada família reage de forma diferente diante da perda, e solicita tempos diferentes para a tomada decisão sobre a doação dos órgãos e tecidos do familiar falecido. Respeitar o tempo da família também faz parte do nosso trabalho.

Nursing - Existem dados estatísticos referentes às doações de órgãos e tecidos autorizadas pelos familiares?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - No Brasil, no ano de 2008, foram identificados 5.992 potenciais doadores (32 por milhão de população por ano – pmp/ano); desse total, 1.317 foram doadores efetivos, ou seja, ocorreu a extração de órgãos vasculari- zados e o implante dos mesmos. As causas da não efetivação da doação estavam relacionadas à parada cardíaca com 23%, recusa familiar com 22% e contraindicação médica para a utilização dos órgãos para transplante em 14% dos casos. O número de doadores no Brasil (sete pmp/ano) é insuficiente para atender a demanda de receptores quando comparado ao de países mais avançados, como a Espanha e os Estados Unidos que atingem números superiores a 22 doadores efetivos pmp/ ano. O problema da captação, alocação e qualidade dos órgãos para transplante se deve em parte aos próprios profissionais de saúde que mantêm potenciais doadores de órgãos e tecidos sob tratamento, muitas vezes, inadequado e ineficaz para a situação do doador de órgãos. Muitos desses profissionais não notificam a ocorrência de morte encefálica às Organizações de Procura de Órgãos. Sendo assim, a educação permanente direcionada ao profissional da saúde pode representar uma alternativa para melhorar a qualidade e aumentar o número de órgãos ofertados.

Nursing – Qual a sua percepção quanto à atuação do enfermeiro na doação dos órgãos junto ao paciente terminal e familiares?

Prof. Edvaldo Leal de Moraes - O foco do processo de doação é o doador falecido (com diagnóstico de morte encefálica) ou com parada cardíaca. Nessa situação, a família tem que autorizar a retirada de órgãos e tecidos.

 LUCAS PICUETA  

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Fonte: http://enfermagemluta.blogspot.com/2009/08/questao-familiar-no-processo-de-doacao.html

2.110 quilómetros a pé pela doação de órgãos

TRANSPLANTES

2.110 quilómetros a pé pela doação de órgãos

02 | 08 | 2009   16.34H

Durante cem dias, José Sá atravessou, a pé, França, Espanha e Portugal para apelar à doação de órgãos. Agora, em França, vai criar uma associação de dadores disse à Lusa o caminhante.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

“Não foi difícil caminhar de França até Portugal”, referiu José Sá, o emigrante que, durante cem dias, fez 2.110 quilómetros a pé numa campanha de sensibilização pela doação de órgãos.

“É uma forma de comemorar o vigésimo aniversário da data em que recebi um fígado novo”, salientou o homem que, em Joane, a freguesia de Famalicão, onde nasceu, está já a preparar a associação de dadores de órgãos que vai criar logo que volte a França.

Com 48 anos, três filhos e uma neta, José Sá é portador da Doença de Wilson.

Os pais de José emigraram de Vila Nova de Famalicão para Vaux-Warnimant (departamento de Cosnes-et-Romain, a 30 km de Estrasburgo), em França, e tiveram doze filhos.

Uma irmã e um irmão do homem que dá corpo a uma campanha em prol da doação de órgãos faleceram com doenças hepáticas.

“Além dos dois que já morreram, tenho mais dois irmãos e uma irmã com a mesma doença e, a todo o momento, podem precisar de realizar um transplante”, disse José Sá.

É pelos irmãos e pelas “centenas de pessoas doentes” que conhece, que o emigrante português inicia uma viagem que deve durar cem dias.

“Trouxe uma mochila com alguns remédios, roupa e documentos sobre a doação de órgãos que distribui por locais e pessoas com quem me vou cruzei”, frisou.

“Foi uma experiência única em que pude falar com centenas de pessoas e com muitos órgãos de comunicação social, passando sempre a mensagem de que doar órgãos é dar vida a outras pessoas”, salientou José Sá.

De França até Santiago de Compostela, em Espanha, José Sá, percorreu o Caminho de Santiago e ficou “impressionado com a beleza da paisagem”.

Pelo caminho, falou com famílias que perderam filhos em acidentes de viação e que doaram os órgãos.

“Há pessoas que, embora não me conhecessem, falaram comigo, deram-me apoio e ofereceram-me comida e uma cama para dormir”, recorda.

De Santiago de Compostela até Joane o trajecto foi feito por estrada.

“Não foi fácil porque a viagem foi longa mas consegui alcançar o meu objectivo porque tal como eu, vinte anos depois de um transplante, estou vivo e com saúde, há muita gente que pode viver com muito mais qualidade se houver mais pessoas a doar órgãos”, salientou.

A Doença de Wilson é genética e hereditária e manifesta-se, sobretudo, através da acumulação excessiva de cobre nos tecidos que pode levar a uma falência hepática fulminante.

“As pessoas têm ainda algum medo de oferecer os seus órgãos para que outros possam viver mas este é o maior acto de solidariedade humana que conheço”, disse o emigrante.

“Não é preciso escrever nada nem fazer ‘testamentos’ para que seja possível doar órgãos que são vitais para que outras pessoas vivam. Basta manifestar essa intenção à família e aos amigos”, contou Sá.

Cansado, ainda com a marca da mochila as costas, José Sá, percorreu mais de dois mil quilómetros para chegar a uma conclusão: “O mundo não é assim tão mau como eu pensava”, finalizou.