03 agosto, 2009

2.110 quilómetros a pé pela doação de órgãos

TRANSPLANTES

2.110 quilómetros a pé pela doação de órgãos

02 | 08 | 2009   16.34H

Durante cem dias, José Sá atravessou, a pé, França, Espanha e Portugal para apelar à doação de órgãos. Agora, em França, vai criar uma associação de dadores disse à Lusa o caminhante.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

“Não foi difícil caminhar de França até Portugal”, referiu José Sá, o emigrante que, durante cem dias, fez 2.110 quilómetros a pé numa campanha de sensibilização pela doação de órgãos.

“É uma forma de comemorar o vigésimo aniversário da data em que recebi um fígado novo”, salientou o homem que, em Joane, a freguesia de Famalicão, onde nasceu, está já a preparar a associação de dadores de órgãos que vai criar logo que volte a França.

Com 48 anos, três filhos e uma neta, José Sá é portador da Doença de Wilson.

Os pais de José emigraram de Vila Nova de Famalicão para Vaux-Warnimant (departamento de Cosnes-et-Romain, a 30 km de Estrasburgo), em França, e tiveram doze filhos.

Uma irmã e um irmão do homem que dá corpo a uma campanha em prol da doação de órgãos faleceram com doenças hepáticas.

“Além dos dois que já morreram, tenho mais dois irmãos e uma irmã com a mesma doença e, a todo o momento, podem precisar de realizar um transplante”, disse José Sá.

É pelos irmãos e pelas “centenas de pessoas doentes” que conhece, que o emigrante português inicia uma viagem que deve durar cem dias.

“Trouxe uma mochila com alguns remédios, roupa e documentos sobre a doação de órgãos que distribui por locais e pessoas com quem me vou cruzei”, frisou.

“Foi uma experiência única em que pude falar com centenas de pessoas e com muitos órgãos de comunicação social, passando sempre a mensagem de que doar órgãos é dar vida a outras pessoas”, salientou José Sá.

De França até Santiago de Compostela, em Espanha, José Sá, percorreu o Caminho de Santiago e ficou “impressionado com a beleza da paisagem”.

Pelo caminho, falou com famílias que perderam filhos em acidentes de viação e que doaram os órgãos.

“Há pessoas que, embora não me conhecessem, falaram comigo, deram-me apoio e ofereceram-me comida e uma cama para dormir”, recorda.

De Santiago de Compostela até Joane o trajecto foi feito por estrada.

“Não foi fácil porque a viagem foi longa mas consegui alcançar o meu objectivo porque tal como eu, vinte anos depois de um transplante, estou vivo e com saúde, há muita gente que pode viver com muito mais qualidade se houver mais pessoas a doar órgãos”, salientou.

A Doença de Wilson é genética e hereditária e manifesta-se, sobretudo, através da acumulação excessiva de cobre nos tecidos que pode levar a uma falência hepática fulminante.

“As pessoas têm ainda algum medo de oferecer os seus órgãos para que outros possam viver mas este é o maior acto de solidariedade humana que conheço”, disse o emigrante.

“Não é preciso escrever nada nem fazer ‘testamentos’ para que seja possível doar órgãos que são vitais para que outras pessoas vivam. Basta manifestar essa intenção à família e aos amigos”, contou Sá.

Cansado, ainda com a marca da mochila as costas, José Sá, percorreu mais de dois mil quilómetros para chegar a uma conclusão: “O mundo não é assim tão mau como eu pensava”, finalizou.

 

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