14 janeiro, 2009

As pedras no caminho - Santa Casa

As pedras no caminho

Texto: Clarissa Lima

 

Doação de Órgãos

 

Conforme dados da Coordenação Hospitalar de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, a estagnação no número de doações tem como causa, além da falta de autorização familiar, a subnotificação de morte encefálica à Central de Transplantes do Estado.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Brasil apresenta uma diminuição na taxa de doadores de órgãos efetivos para cada milhão de habitante. Esse número passou de 7,3 em 2004 para 6,4 em 2005, 6,0 em 2006, tendo uma leve tendência de recuperação em 2007 com 6,2 doadores por milhão de habitantes. No Rio Grande do Sul, essa taxa tem-se mantido estável em 13 doadores por milhão de habitantes ao ano. Ainda assim, o Estado perdeu o topo do ranking para Santa Catarina, que se aproxima de 15 doadores. As demais regiões brasileiras apresentaram queda nas doações. A título de comparação, nos Estados Unidos, esse número chega a 24 e na Espanha, maior índice do mundo, a 35.

Segundo o coordenador hospitalar de transplantes da Santa Casa, Dr. Valter Garcia, a principal causa da estagnação das doações de órgãos entre os gaúchos não é somente ausência de consentimento das famílias, mas também a falta de notificações de morte encefálica às centrais de transplantes do País. Um dos principais fatores para isso, na avaliação do médico, é o acúmulo de funções dos profissionais nos grandes hospitais do Brasil. Segundo Dr. Garcia “outro problema também é o número insuficiente de leitos das UTIs”.

Além de comunicar a suspeita de morte encefálica, os hospitais têm de manter o paciente sob determinadas condições para que a doação possa ser efetivada. “Em muitos locais, possíveis doadores são perdidos porque esses procedimentos não são seguidos”, observa.

Além desse problema, a falta de conhecimento técnico para realizar o  diagnóstico é outro forte motivo. “Para aumentar as notificações é preciso estimular os hospitais a assumirem como política institucional a doação de órgãos e investir na educação permanente das comunidades”, diz o especialista.

 

Do Diagnóstico à Doação

A definição de morte é um consenso na comunidade científica mundial. Ela se dá no momento em que o encéfalo - e não o coração - pára de funcionar. No Brasil, a legislação também segue esse critério para definir o momento em que uma pessoa morre. Considera-se como potencial doador todo o paciente em morte encefálica. No País, o diagnóstico de morte encefálica deve ser registrado em um Termo de Declaração de Morte Encefálica, documento formal do Conselho Federal de Medicina. Nele, serão descritos os elementos do exame neurológico que demonstram a presença de coma profundo e ausência de reflexos do tronco cerebral. “Devem ser realizados dois exames neurológicos, por dois médicos não participantes das equipes de captação ou transplante, sendo um deles neurologista ou neurocirurgião. O intervalo de

tempo entre um exame e outro é definido em relação à idade do paciente, sendo seis horas o tempo mínimo”, explica Dr. Valter Garcia.

Depois dos exames neurológicos, realiza-se uma avaliação complementar para certificação da morte através de Arteriografa Cerebral, Cintilografa Cerebral, Eletroencefolograma ou Doppler Transcraniano. Após o diagnóstico de morte encefálica, é necessário o registro da mesma às Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos. Para isso, o médico deve telefonar para a Central de seu Estado informando nome, idade, causa da morte e hospital onde o paciente se encontra internado. Essa notificação é compulsória, independente do desejo familiar de doação ou da condição clínica do potencial doador de converter-se em doador efetivo.

Conforme Dr. Garcia, a expectativa no Rio Grande do Sul é de que 600 a 700 pessoas apresentem quadro de morte encefálica todos os anos. Entre as suas principais causas estão os traumatismos cranianos encefálicos, os acidentes vasculares encefálicos (hemorrágico ou isquêmico) e os tumores cerebrais primários. “Mas nem todos esses casos chegam ao conhecimento da Central”, afirma o médico. Dados revelam que atualmente 60% dos casos de morte encefálica são notificados no Estado e, desse percentual, 30% não têm a autorização da família para a doação. Para ele, há uma perda significativa desde a morte até o desfecho final, que é a realização do transplante.

 

Desconhecimento dificulta doações

Uma das razões que levam as famílias a não autorizarem a doação de órgãos é a falta de conhecimento dos pré-requisitos e dos procedimentos médicos para que ela ocorra. Muitos não sabem o que significa de fato morte encefálica (popularmente chamada de morte cerebral), achando que o paciente ainda tem chances de sobreviver, não permitindo que sejam retirados os seus órgãos.

Segundo Dr. Valter Garcia, ao ver o paciente na UTI, alguns familiares acreditam que ele esteja em estado de coma e, por isso, resistem em autorizar a doação. “Coma é um estado reversível. Morte encefálica, não. Uma pessoa somente torna-se potencial doadora após o correto diagnóstico de morte encefálica e da autorização dos familiares para a retirada dos órgãos”, reforça.

O médico explica que a morte encefálica é a parada definitiva e irreversível do encéfalo (cérebro e tronco cerebral), provocando em questão de horas a falência de todo o organismo. Assim que ela ocorre, o coração bate às custas de medicamentos, o pulmão funciona com a ajuda de aparelhos e o corpo  continua sendo alimentado por via endovenosa.

Segundo o especialista, atualmente há, na lista de espera, no Rio Grande do Sul, em torno de 750 pacientes aguardando por uma córnea, 1.570 por um rim, 200 por um fígado, 20 por um coração e 50  por um pulmão.

Em 2007, a Central de Transplantes do Rio Grande do Sul registrou 147 doadores.  Para que esse número aumente, Dr. Garcia acredita que a doação de órgãos deva ter o seu conceito e importância bem difundidos entre a sociedade e a classe médica. “É preciso que todos percebam o sofrimento das pessoas em lista de espera de doação e a angústia dos pais que querem ter seu filho vivo. A melhor maneira de entender a importância desse gesto é se colocando no lugar dessas pessoas. Assim como podemos morrer e nos tornarmos doadores, também podemos estar à espera de um doador”, conclui o médico.

 

 

Doação de órgãos

José J. Camargo
Diretor- médico do Hospital Dom Vicente Scherer e Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica

A escassez de doações de órgãos continua sendo a principal limitante ao aumento do número de transplantes, contrastando com o número crescente de potenciais receptores de órgãos, uma tendência esperada pelo aumento da idade média das pessoas e, conseqüentemente, o aumento da incidência de doenças degenerativas.

O melhor modelo de captação de órgãos para a doação é o espanhol, no qual se chegou ao índice invejável de 35 doadores por milhão de habitantes, por ano, o que explica porque na Espanha, há alguns anos, não há mais lista de espera para transplante, e muitos órgãos disponibilizados por doação têm sido oferecidos aos vizinhos franceses e alemães.

Nos EUA, o índice é de 24 doadores por milhão, mas a crescente demanda de novos candidatos ainda mantém as longas listas, com tempo de espera que pode chegar a dois anos.

O Brasil vive uma situação paradoxal, porque dada à violência urbana e a loucura do trânsito, é um país com um dos mais altos índices de casos de morte encefálica (se estima que tenhamos entre 60-70 casos de morte cerebral, por milhão de habitantes, por ano) e um dos mais baixos índices de doação (4-6 doadores, por milhão, por ano), o que evidentemente se deve à desinformação, ignorância e misticismo.

Dentro do próprio país, esta relação entre nível social e índice de doação está bem explícita: quando o governo, tentando ajudar, promulgou a malfadada lei da doação compulsória, os índices de rejeição à medida foram diretamente proporcionais ao grau de pobreza social e cultural de cada região. Enquanto em regiões mais progressistas, os índices de negativa andaram abaixo de 20%, nas regiões sabidamente miseráveis, estes índices ultrapassaram 85%.

A propósito, a idéia do governo de mudar conceitos de raízes culturais, através de um simples decreto, revelou ingenuidade e grande despreparo na avaliação do sentimento das pessoas. Se a compulsão era de promover um decreto, que este fosse direcionado, por exemplo, para tornar obrigatória a informação sobre morte encefálica e doação de órgãos, em escolas de primeiro e segundo graus. Isso teria, a médio prazo, um efeito positivo e duradouro, e a criança seria o mais eficiente dos veículos para levar o debate deste tema para o seio da família.

Em termos mais permanentes, só teremos constância nas doações se o assunto for incluído no currículo escolar, para que cada aluno seja no futuro um adulto consciente do seu papel de cidadão, integrante de uma sociedade condenada a se extinguir se antes não conseguir ser solidária. Vale a pena realçar que a discussão prévia do assunto é decisiva para que a doação se efetive. É muito improvável que alguém agredido agudamente pela perda de um ente querido, tenha cabeça para decidir pela doação dos seus órgãos, se este assunto nunca foi debatido antes, e o agora doador não teve a oportunidade de expressar o seu desejo.

Por outro lado, quando alguém em vida saudável, sensibilizado pelo drama dos que necessitam de um transplante, anuncia para os seus que, em caso de morte cerebral, gostaria de ser um doador, ele estará retirando de sua família o peso desta decisão.

Outra ponta importante do problema é a sensibilização da classe médica, que tem se revelado lamentavelmente omissa, deixando inclusive de cumprir um preceito ético, ao não comunicar qualquer caso de morte encefálica. É indispensável que os médicos se conscientizem que a sua missão ultrapassa os limites do atendimento daquele paciente específico, para o qual evidentemente ele não terá mais nada a oferecer, mas que permanece a possibilidade de que 7- 8 pessoas possam ter suas vidas modificadas por um transplante.

É importante realçar que sem a comunicação médica de morte encefálica o processo, que pode culminar com a autorização da família, nunca se iniciará.

Outro aspecto importante é que todos nós somos potenciais receptores e que a chance estatística de que um de nós ou alguém de nossa família precise de um transplante é muito maior do que venhamos a apresentar morte encefálica, o que quer dizer que somos mais potenciais receptores do que potenciais doadores.

Como a doação é um gesto de generosidade absoluta, porque tomado num momento em que houve a sublimação da própria dor para que outros tivessem a chance de continuar vivendo, este gesto gera um sentimento de gratificação e, de certa forma, de atenuação do sofrimento.

E isso será sempre assim porque nós todos nascemos intrinsecamente bons, ainda que possamos piorar depois...

O que é certo é que ninguém jamais vai se orgulhar de haver negado uma doação. O sentimento predominante mais tarde será sempre o de um profundo e irreparável remorso.

http://www.santacasa.tche.br/revista/verimagem.asp?id=1014

Recurso Avançado: Transplante de órgãos e tecidos ampliam e qualificam a vida

 

 

http://www.santacasa.tche.br/revista/verimagem.asp?id=1016

TRANSPLANTE: Cirurgia depende da comunicação de morte encefálica

 

 

http://www.santacasa.tche.br/revista/verimagem.asp?id=1017

CÓRNEA E FÍGADO: Tecido e órgãos que integram a lista dos transplantes de rotina

 

 

http://www.santacasa.tche.br/revista/verimagem.asp?id=1018

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