Menina vítima de AVC tem os órgãos doados
Menina vítima de AVC tem os órgãos doados
Galeria
Anselmo Belo: um pai arrasado pela perda da filha, mas compreendendo que a vida é muito mais (Foto: Marília Camelo)
Albert Sabin: o ato dos pais de Isabela foi motivo de orgulho para a Comissão de Transplantes (Foto: André Lima - 21/03/2004)
Isabela Micaele, de seis anos, parte deixando tristeza na família, mas possibilitando um grande ato de humanidade
Criança de seis anos é vítima de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e apesar do socorro imediato ela não resiste. Depois de cinco dias em estado grave é constatada a morte cerebral. A Comissão de Transplantes do Hospital Infantil Albert Sabin, onde Isabela era atendida, entra em contato com os pais para sondar a possibilidade de doação dos órgãos. Depois da resistência inicial materna, a captação é feita.
Era Sexta-feira da Paixão, quando o operário de uma indústria de bebidas em Pindoretama, Anselmo Belo Sampaio, 43 anos, voltava mais cedo do trabalho devido ao feriado. Ele encontra a filha, Isabela Micaela Belo Sampaio, seis anos, à pé, trazendo a bicicleta reclamando de uma dor de cabeça tão grande que nem a deixava mais pedalar.
Socorro imediato
O pai ajuda a menina a entrar em casa e logo fica muito agitado, quando Isabela reclama que não está mais vendo nada. Apreensivos, os pais se dirigem imediatamente ao Hospital Municipal de Pindoretama. Ali, constatada a grave situação, a menina é trazida, sem demora, para o HIAS.
Na Capital, Isabela é internada e permanece em estado grave. Às 11 horas da quarta-feira, é constatada a morte encefálica. Os pais são contatados para a possibilidade de doação dos órgãos, mas a mãe resiste um pouco à idéia. Seu Anselmo, apesar da dor, convence a mulher a fazer a doação.
Os procedimentos necessários são realizados e ontem, às 13 horas, o fígado foi captado e logo depois voou para Recife, onde foi transplantado numa outra menina, de dois anos de idade, que sofria de insuficiência hepática grave. O fígado não pode demorar a ser reimplantado, por isso a operação foi realizada ontem mesmo. Era necessário que a paciente em Recife estivesse pronta para a operação.
Os rins e as córneas ainda estão esperando receptores. Seu pequeno coração tinha um problema que impediu que ele pudesse ser doado.
TRANSPLANTE
Primeira captação múltipla no HIAS
A captação e transplante de órgãos são operações complicadas. Nem todo mundo pode doar, os receptores têm que ter compatibilidades variadas dependendo do implante e até a distância entre doadores e receptores e o tempo que o órgão leva para chegar a seu novo destino de vida podem impedir o sucesso do transplante. Por isso é imprescindível de que as famílias atendam aos desejos de seus entes queridos que querem doar, pois só o desejo do doador pode não ser suficiente para que se efetive.
A doação dos órgãos de Isabela Micaela, apesar da dor causada pela morte da menina, foi motivo de orgulho para a Comissão de Transplantes do Hospital Infantil Albert Sabin. Funcionando há seis meses, ficou constatado que o hospital tem capacidade de fazer a captação múltipla de órgãos.
Esta foi a primeira vez que vários órgãos puderam ser captados e poderão ser transplantados para pacientes que terão a esperança de uma nova vida ou poderão enxergar.
No caso do coração a ser doado, o órgão precisa passar por uma ecografia. Constatado qualquer problema, a captação é rejeitada. No caso do fígado o que importa é o fator Rh.
As captações no Brasil, diferentemente de outros países com centros médicos mais sofisticados, somente são possíveis se o paciente tiver mais de dois anos de idade.
Para o transplante, o tempo varia de órgão para órgão. No caso do fígado, quanto menos tempo melhor, ele só pode esperar algumas horas. No caso de o receptor estar distante, até horários de vôos têm que ser levados em conta para a captação. Foi o que aconteceu no caso de Isabela.
Os rins já têm maior resistência. Eles têm capacidade de esperar até seis dias entre a captação e o transplante. O que dá mais tempo para se encontrar um receptor compatível. As córneas são as mais resistentes. Elas esperam até duas semanas para voltarem a ser as janelas de uma nova luz.
DOE DE CORAÇÃO
Conscientização faz aumentar registros
O número de procedimentos de captações e transplantes de órgãos no Ceará foi recorde no ano passado. Do mês de janeiro até o dia 21 de dezembro, foram realizados 609 transplantes no Estado. O número foi maior que o registrado no recorde anterior, em 2004, com 50 captações a mais, e 163 procedimentos a mais que no ano de 2006.
Até o início deste ano, apesar do incremento no número de captações, 950 pessoas ainda estavam na fila a espera de um órgão. Deste total, 605 aguardavam córneas e 124 pacientes esperavam por um fígado.
As melhorias nas estruturas de captação de órgãos nos hospitais públicos, principalmente o Instituto Doutor José Frota (IJF), e a conscientização da sociedade são apontadas como fatores preponderantes para o aumento das doações.
Desde 2002, a Fundação Edson Queiroz criou e reforça a campanha "Doe de Coração", outra forma de dizer à sociedade como é importante a sua participação para melhorar a qualidade de vida, ou até mesmo salvar a de quem corre o risco de morrer na fila de espera.
Aquele que deseja ser doador deve deixar isto muito claro para seus familiares e amigos. A constatação de morte cerebral é feita a partir de inúmeros procedimentos, onde fica claro que é impossível a retirada de algum órgão de quem não esteja com morte encefálica. E nem só a vontade do doador é suficiente para efetivá-la.
Mais informações:
Central de Transplantes
(85) 3101-5238
Amaury Cândido
Repórter



