Livro aponta que tráfico de rim endividou fornecedores
Livro aponta que tráfico de rim endividou fornecedores
Fabiana Leal
Direto de Porto Alegre
Após doarem rins para a maior quadrilha de tráfico internacional de órgãos descoberta no Brasil em 2003, os quase 40 "fornecedores" pernambucanos, como eram chamados na rede, continuam pobres como na época, mas agora endividados. A constatação está no livro-reportagem Rim por Rim do jornalista Julio Ludemir.
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"Todas (as pessoas) sobreviveram. Não há registro de morte. Estão vivos jogando futebol, fazendo sexo, trabalhando, mas economicamente estão pior. Antes eram pobres. Hoje, são pobres e endividados. Todos compraram celular e foram para o cartão de crédito. Só há dois casos que conseguiram transformar dinheiro em alguma coisa. Um comprou uma casa para o filho e o outro comprou pequenas casas e vive de aluguéis", disse o autor do livro.
Segundo Ludemir, ao longo de três anos, ele falou com cerca de 50 pessoas envolvidas com a comercialização de rins para a quadrilha internacional. Primeiro, chegou a um fornecedor, que o encaminhou até os demais. Conforme o escritor, 38 moradores do Recife consumaram a doação de rins para esta rede na África do Sul na época. No entanto, o número de pessoas que procurou a quadrilha para doar o órgão foi maior. Alguns deles chegaram a viajar para a África, mas não fizeram a cirurgia para retir o órgão.
Punição
A comercialização de órgãos humanos é tratada no direito penal brasileiro no artigo 15, da Lei 9.434/97, que dispõe sobre os procedimentos de remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento. De acordo com a lei, a pessoa que comprar ou vender tecidos, órgãos ou partes do corpo humano está sujeita à pena de três a oito anos de reclusão e multa. Segundo a lei, "incorre na mesma pena quem promove, intermedeia, facilita ou ganha qualquer vantagem com a transação".
Tráfico global
O crime de tráfico de órgãos é o mais global, de acordo com o autor. "É o crime mais globalizado que existe. Todas as pontas estão em todos os lugares do mundo. É um crime que depende de tecnologia de ponta. Quanto mais se desenvolve tecnologia de saúde, mais fácil ficam os transplantes." Para Ludemir, o tráfico de órgãos "é o mercado negro que se modifica e ganha novas formas à medida em que a repressão atua".
Para fazer o livro-reportagem, Ludemir partiu dos estudos de dez anos sobre tráfico de órgãos feitos pela antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes e avaliou o caso desbaratado no Recife (PE), em dezembro de 2003. Na ocasião, nove brasileiros e dois israelenses foram presos.
A Polícia Federal desarticulou a quadrilha, segundo Ludemir, dois ou três dias antes de as operações começarem a ser feitas no Brasil. Até então, moradores da periferia do Recife entravam em uma fila, muito disputada, para ir até Durban, na África do Sul, doar os rins. A maioria dos receptores era de Israel.
"Se a PF tivesse agido uma semana depois, já flagraria operações feitas em Pernambuco com receptores romenos", afirmou.
Segundo Ludemir, o grande consumidor desses órgãos era uma quadrilha que vivia de fraudar o seguro de saúde de Israel para fornecer rins. "Algumas pessoas acusam o governo (israelense) de ser cúmplice, mas não se provou. No começo, esse mercado - da 'corrida do ouro' em torno de alguns bairros da periferia do Recife - oferecia US$ 15 mil, quando o dólar valia muito, uns cerca de R$ 50 mil", disse.
Segundo o escritor, os primeiros pernambucanos que foram para a África do Sul eram tratados como "reis". "Ficavam em hotéis maravilhosos. Podiam gastar quanto quisessem. Porém, esse pagamento foi caindo e chegou a ser de US$ 6 mil, porque surgiram vários intermediários entre o comprador e o fornecedor. Tornou-se a 'corrente do rim'. Cada um que indicava outro (fornecedor) tirava um percentual de lucro", disse.
Para Ludemir, o tráfico de órgãos "é o mercado negro que mais se modifica e vai ganhando novas formas na medida em que a repressão atua".
Sofisticação
Segundo o escritor, a rede de tráfico de órgãos internacional chegou ao grau máximo de sofisticação no Recife, quando estava prestes a começar a fazer as cirurgias no Brasil, sem ter de levar o doador até a África do Sul. Essa viagem era encarada como gasto extra, já que o doador precisava permanecer no país até ser encontrado um receptor compatível. A rede também corria o risco de perder o doador se ele usasse drogas ou fizesse sexo no continente africano, devido à aids. "A vinda para o Brasil significava a otimização do mercado da carne humana."
Antes de as cirurgias serem feitas na África do Sul, em grandes redes de hospitais, elas eram feitas de forma clandestina em clínicas da Turquia. Segundo Ludemir, ele ouviu de um dos integrantes da quadrilha que após ter sido descoberta no Brasil, as ramificações da quadrilha teriam ido para a Colômbia. "A próxima capital miserável com boa estrutura seria Bogotá."
"Essa rede está funcionando em algum lugar. Da mesma forma como o tráfico de drogas continua existindo. Há pessoas precisando de órgãos e pessoas querendo vender. Deve estar havendo a 'corrida do ouro' em algum lugar. O modo como funciona é muito sutil e fica invisível e detectá-la é mais difícil."
Aperto de mãos
De acordo com Ludemir, o que lhe chamou atenção nesta rede de tráfico de rins foi a relação afetiva do fornecedor do órgão com o receptor. "O fornecedor aperta a mão do receptor. Mais o do que isso, ele faz questão de vender (o órgão). Um dos fornecedores guarda a foto da pessoa na carteira, ao lado da foto do filho. É mais do que um mercado acordado, é um mercado que se cria vínculo. Ele meio que se sente da família. A pessoa faz questão de escrever para a que recebeu (o órgão)".
No entanto, a reação de quem recebe é de tentar não ver o rosto do outro. "Ela tenta esquecer. Quando mercantiliza essa relação, perde o sentimento de culpa. Da parte do receptor, ele quer esfriar (a relação)."
Nancy, segundo o autor, define essa relação como a última fronteira, em que o corpo humano é transformado em um conjunto de mercadorias. Ela define os receptores como neo canibais, "quando canibaliza alguém não está o comendo inteiro. Está pegando a parte do outro que mais deseja. Ele está escolhendo esse órgão", disse Ludemir.
O autor afirmou que esse tráfico de órgãos intervivos se tornou tão forte porque o fornecedor "tem mais garantia". "Aquele órgão morto, aquela doação de pessoas mortas, não tem garantia de qualidade. Pode ter hepatite C e aids. Você discute isso mercadologicamente, o que torna o mercado mais cruel."
Sem arrependimentos
Ludemir disse que os fornecedores de órgãos do Recife não se arrependeram da comercialização. "A prova de que eles não se arrependeram foi que não aderiram a uma tentativa de criar uma ONG para ajudá-los.
"A macheza do pernambucano é impressionante. A Nancy tentou organizar uma ONG dos fornecedores arrependidos, mas eles não aderiram. A ONG deu certo em outros países. Eles não perderam saúde e não se arrependeram. Usam um discurso tosco, primário, mas dizem que a mercadoria é deles. Dizem: 'o rim é meu, faço com ele o que eu quero'".
Segundo Adriana Maia, assistente de projetos em tráfico de pessoas do escritório brasileiro das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), a criação de uma ONG somente é possível quando já existe uma conscientização e uma mobilização por parte das pessoas atingidas.
"Formar uma ONG quando a atitude vem de fora para dentro é difícil. É mais viável quando ela brota de forma natural. Se já existe conscientização e mobilização, aí você consegue aos poucos que brote dali um apoio."
Ludemir afirmou "que há uma relação meio psicanalítica. Às vezes, a gente não sonha para não se frutar. (Eles) se sentiram reis durante três meses, quando tiveram acesso a um mercado de consumo, e depois tiveram a desilusão".
Na época, segundo o escritor, eles eram conhecidos como "os ricos da periferia". Mas com o reencontro com o lugar anterior produziu neles a desilusão. "Embora não tenha arrependimento, que o macho pernambucano prevaleça, hoje eles teriam maior dificuldade em lutar com o sonho. No entanto, garantem que se a rede voltasse, teriam mais fornecedores. A quadrilha acabou de sair da cadeia, mas se eles pudessem se rearticular, acham que conseguiriam fornecedores com facilidade."
Conforme Ludemir, agora eles usariam o próprio exemplo para mostrar que foram para o exterior fazer a cirurgia para a retirada do órgão, voltaram e estão vivos. Na época muitos acreditavam que pudessem ser mortos pela quadrilha.
"Eles não morreram até agora. Todo o discurso pró-saúde não sobrevive diante da realidade do vizinho. O vizinho foi e voltou. Nem parar de beber pararam", afirmou o autor.
O jornalista Ludemir também é autor dos livros Coração do Comando, que narra a história de amor entre Neguinho e Valéria, presidiários integrantes de duas facções rivais (o Terceiro Comando e o Comando Vermelho), que disputam o controle do tráfico de drogas nas favelas; Sorria, você está na Rocinha, que traduz a complexidade da "teia de relações" entre favela e "asfalto, Lembrancinha do Adeus: História(s) de um Bandido, que conta a história de Lambreta, um bandido velho e cansado de guerra, que relata suas histórias para Lembrancinha, um menino órfão cujo grande sonho é entrar para o crime.
Ele é autor ainda de Mais um Pai, em que descreve a vida de Bernardo, que leva uma vida boa ao lado da mãe e do padrasto. Seu avô o adora e realiza todos os seus desejos. Prestes a se tornar um homenzinho de 10 anos, não consegue decidir o que quer ganhar de presente de aniversário e acaba confessando que gostaria de conhecer seu pai biológico e de Bandido da Chacrete, que conta a trajetória de Paulo César Chaves, o PC, um dos mais intrigantes fundadores do Comando Vermelho.




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