Esquema de fraude expõe fragilidade do sistema de transplantes no Rio
Carolina Bellei, Jornal do Brasil
RIO - A ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União e o Estado para instalação de um banco de olhos público e a prisão, anteontem, do ex-coordenador do Rio Transplante, Joaquim Ribeiro Filho, expõem a crise e a fragilidade do sistema de transplantes do Rio de Janeiro. Enquanto isso, 7.444 pessoas esperam na fila por uma chance de sobreviver.
O Estado do Rio ocupa a segunda colocação no ranking do Ministério da Saúde de pessoas que esperam pelo transplante, atrás apenas de São Paulo. Mas um dos grandes contrastes é quanto ao modelo utilizado pelos paulistas.
A adoção do sistema Operação Procura Órgãos (OPO) no estado, uma iniciativa dos hospitais credenciados ao Ministério da Saúde, possibilitou, por exemplo, uma queda crescente na lista de pacientes atendidos. Só entre os transplantes de córneas realizados este ano, em comparação ao mesmo período de 2007, a fila diminuiu em 37%. Foram realizados nos seis primeiros meses do ano 3.521 operações em São Paulo, contra 60 feitas no Rio.
Além da lista de espera de São Paulo ser totalmente informatizada e conter informações minuciosas sobre todos os pacientes, a OPO aumentou substancialmente o número de doadores e agilizou muito o processo.
– São mais de 5 mil municípios e um não troca experiência com o outro - se indigna Rafael Paim, presidente da Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos, que completa. – Pelo menos há três anos esse modelo pioneiro no país foi adotado pelos paulistas e até hoje nenhum outro estado utiliza.
A presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio, Márcia Rosa Araújo, lembra que é necessário um controle maior para que a corrupção não tenha lugar.
– Sempre vai ocorrer brechas para as fraudes na sociedade. Sempre prevalece o poder econômico sobre a vida das pessoas – afirma Márcia. –
Então, deve haver um controle não só da coordenação de transplantes, do Ministério e da Secretaria, mas também dos principais interessados, como as associações dos transplantes.
Calamidade pública na saúde
Depois que o médico Joaquim, chefe da equipe de transplantes no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, foi preso, o Ministério da Saúde ordenou que as operações de fígado fossem realizados apenas no Hospital Geral de Bonsucesso.
O Hospital do fundão continua atendendo normalmente, mas os 1.077 pacientes que aguardam por um fígado, por enquanto, só podem ser operados pela única equipe de Bonsucesso.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, a situação de crise do sistema de transplantes do Rio só reafirma o estado de calamidade pública da saúde do Rio, decretado em 2005 e que até hoje não foi revogado pelo presidente Lula.
– É necessário que os governos se comprometam a soerguer o sistema de saúde. Não há rede básica, estrutura necessária e nem hospitais adequados. Sem falar da baixa remuneração dos profissionais, que para realizar transplantes precisam de uma qualificação grande, mas têm que se submeter a um salário de R$ 1.500 na rede pública – avalia Darze. – A nossa deficiência é alimentada pela impunidade. Não há vontade política para a saúde.
[23:43] - 31/07/2008




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