Cadê as campanhas de transplante e as medidas preventivas?
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01/08/2008 - 21:41 - Atualizado em 01/08/2008 - 21:44
Cadê as campanhas de transplante e as medidas preventivas?
O Brasil poderia salvar mais vidas se mais pessoas decidissem doar órgãos e se os doentes conseguissem tratamento adequado antes de chegar aos estados crônicos e graves das doenças
Isabel Clemente
Mutirões costumam oferecer resultados de curto prazo para tudo. Na saúde não é diferente. Pacientes são os primeiros a reclamar da rara freqüência com que o tema transplantes é tratado em campanhas oficiais para estimular a doação de órgãos. Seria uma importante colaboração para disseminar a cultura da doação no país e ampliar o conhecimento sobre um tema tão delicado. A morte cerebral é um mistério para os leigos, acostumados a associar o prolongamento da vida ao batimento do coração, mesmo que sustentado por máquinas.
Se o número de doadores aumentar, de uma hora para outra, o país verá a piora de um outro problema: falta estrutura em muitos hospitais para manter essas pessoas, declaradas mortas, ligadas a aparelhos. Essa constatação faz parte de uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), realizada em 2005. Analistas do Tribunal trabalham hoje justamente tentando verificar qual o grau de despreparo dos hospitais onde geralmente estão os doadores potenciais, jovens mortos de forma trágica, vítimas de acidentes de trânsito e da violência urbana. Esses cadáveres têm que ocupar uma vaga de UTI, espaço geralmente disputado por pacientes vivos.
Essa mesma auditoria do TCU constatou o que todos já desconfiavam: mais da metade dos transplantes são feitos na região Sudeste, um reflexo cruel da desigualdade brasileira. Ao comparar o Brasil consigo mesmo, um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicas (Ipea) chegou a uma estimativa estarrecedora sobre o que significa a ineficiência no transplante de órgãos no país. Entre 1995 e 2003, o Brasil deixou de realizar, na melhor das hipóteses, 872 transplantes de rim e fígado. Na pior das hipóteses, o número chega a 2.200. Os resultados indicam aquilo que poderia ter sido feito se, naqueles anos, o país tivesse apresentado o mesmo desempenho de 2003, o melhor do período estudado.
O quadro da fila de espera por transplantes no Brasil é tão delicado que um aumento de 10% na demanda por órgãos elevaria o tempo de espera por um doador ao infinito, de acordo com projeções de Alexandre Marinho, pesquisador do Ipea e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Essa constatação mostra o quanto é urgente estancar a elevação de pacientes terminais. Do rol de providências a serem tomadas para conter o problema, a mais à mão é prevenir que as pessoas cheguem ao estado grave. "Ações preventivas são essenciais. Diabetes e pressão alta não incapacitam os rins de uma hora para outra. São problemas controláveis. Se tem tanta gente fazendo diálise e precisando de um rim é porque tem muita gente passando a vida toda sem atenção básica de saúde", diz Marinho. O mesmo raciocínio vale para o fígado, órgão afetado gravemente pelo abuso de álcool e até de automedicação. Medidas preventivas não vão zerar a quantidade de pacientes renais crônicos no país, mas certamente ajudarão a prolongar a qualidade de vida de muitas pessoas.
A ONG Parceiros do Rim nasceu em 2000 pela iniciativa de pacientes renais crônicos de Curitiba. Sua missão é ajudar outros pacientes a superar as dificuldades que cercam o tratamento, do deslocamento até a clínica onde fazem hemodiálise ao acesso a medicamentos. Seu presidente, Nilton Luiz Carneiro de Mello, de 45 anos, é um dos que espera na fila por um doador. Há mais de nove anos. Portador de rins policísticos, um problema genético herdado do pai, submete-se à hemodiálise três vezes por semana. Sua história pessoal é um exemplo de luta e evidencia os obstáculos que ainda precisam ser superados no controle das doenças que podem levar as pessoas à necessidade de um transplante. Dos seis irmãos de Nilton, incluindo um gêmeo com alta probabilidade de ter a mesma doença, apenas uma fez exame para saber se herdou rins policísticos. "Ela faz um tratamento conservador. É a única", diz Nilton, casado, pai de dois filhos. A prevenção, nesse caso, é uma dieta rigorosa, pobre em sal e em proteína, para poupar o rim. Uma estatística triste cerca a Parceiros do Rim. Dos sete voluntários que fundaram a organização, dois morreram sem receber um órgão, um deles há apenas um mês.
A notícia sobre o esquema que vendia fígados no Rio de Janeiro foi recebida por Mello com desânimo. "É um desserviço, porque as pessoas ficarão ainda mais reticentes em autorizar a doação de órgãos, imaginando que alguém pode se aproveitar daquilo", diz Nilton que, até descobrir o problema renal, era dono de um restaurante popular em sociedade com o pai, já morto. Quando questionado sobre seu maior sonho, responde que é ampliar o trabalho da ONG para ajudar outros pacientes. E quanto ao rim, tão necessário? "Ah, sim, será maravilhoso", diz Nilton, feliz por estar livre de problemas colaterais típicos de doentes renais, mas ciente de que essa espera não tem data para acabar.
REDE: ONG Parceiros do Rim ajuda pacientes crônicos a viver melhor.
www.parceirosdorim.com
DIVULGAÇÃO: ONG faz campanhas para estimular a doação de órgãos.
http://www.adote.org.br
SAIBA MAIS: Sistema Nacional de Transplantes, site oficial do Ministério da Saúde
http://dtr2001.saude.gov.br/transplantes/
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