Escassez de doações de sangue preocupa profissionais e pacientes
Gabriela Lapagesse, Agência JB
Fonte: JB On line.
RIO - “A situação está desesperadora”. Essa é a expressão encontrada pela diretora do Hemorio, Clarisse Lobo, para caracterizar a atual escassez de doações de sangue no Estado, justamente no dia em que se comemora o Dia Mundial do Doador Voluntário de Sangue. A média de doações, que deveria atingir de 200 a 500 bolsas de sangue diárias, está longe de ser alcançada. Na última segunda-feira, a instituição havia recebido apenas oito, o menor volume de doações dos últimos dez anos.
Os motivos para o baixo número de doações são variados, mas por ironia, aquele que tem sido determinante para essa baixa assustadora é a seqüência de campanhas de vacinação, como a da rubéola, que imunizou 1,6 milhões de pessoas em todo o Estado, entre 28 de maio e dois de junho último. Segundo Clarisse Lobo, no momento em que uma pessoa toma qualquer vacina, ela passa a ter um vírus “enfraquecido”, que forma uma espécie de infecção para que o corpo crie imunidade a ela. Com isso, se um outro indivíduo, que não tem essa proteção que a vacina proporciona no sangue, tiver contato com o sangue doado, ele fica suscetível ao contágio de doenças.
- Qualquer um que tenha tomado uma vacina não pode doar sangue por cerca de 30 dias. Esta é a média. Mas é importantíssimo reforçar que depois deste período, a pessoa deve voltar ao Hemorio para a doação - explica a doutora.
Na prática, a situação é ainda mais grave. O maior hospital da América Latina, o Souza Aguiar, deveria ter no estoque ao menos 60 bolsas de sangue, para conseguir dar conta de toda a procura que recebe diariamente. Na última quarta-feira, havia apenas 14 disponíveis. O diretor da unidade, José Macedo, informou que três cirurgias que tinham um grau de emergência mais baixo foram adiadas.
- A nossa preocupação é com os casos graves, vítimas de tiroteios e de acidentes. Às vezes são necessárias cinco bolsas de sangue em uma mesma cirurgia - diz José Macedo.
Para driblar a crise, medidas paliativas estão sendo descobertas, como o uso do gás argônico ao invés do bisturi elétrico. De acordo com José Macedo, essa alternativa permite uma perda de sangue muito menor do que a normal, mas ainda assim, é uma prática que não pode ser usada em situações mais alarmantes.
- Em cerca de 20 anos que estou à frente do Hospital Souza Aguiar, jamais vi uma crise de tamanha proporção. Não há reserva -, completa o médico.
Para chamar a atenção da população para a necessidade de doações, a Secretaria Estadual de Saúde, a Defesa Civil e o Hemorio promoveram, no Maracanã, uma ação de comunicação com a população. Durante o jogo Botafogo x Vasco, nesta quinta-feira, foram exibidas mensagens sobre doações no placar eletrônico do estádio. Como a mensagem foi lida por milhares de pessoas durante a partida, acredita-se que muita gente vai se interessar em participar da campanha.
Aqueles que desejam se candidatar à doação devem ter boa saúde, idade mínima de 18 anos e mais 50 quilos de peso. Não podem doar sangue portadores do vírus HIV nem quem já teve sífilis, doença de Chagas ou hepatite. Mulheres grávidas ou que estejam amamentando também estão excluídas.
CRISE TAMBÉM ATINGE DOAÇÕES DE ÓRGÃOS
Mas não é apenas a doação sangüínea que preocupa à classe médica. O transplante de órgãos, como por exemplo o do coração, tem sido dificultado pela escassez de sangue. O que já era ruim, com a falta de doações de órgãos, ficou ainda pior com a falta de sangue nos bancos de doadores.
A cardiologista da clínica Pronto Baby, Rosa Célia, afirmou que transplantes no Rio já não acontecem mais.
- São muitos gastos para se realizar um transplante. É necessária também uma infra-estrutura muito grande e não temos isso aqui. Às vezes, algumas crianças são transferidas para o Incor, em São Paulo, mas mesmo assim o número de operações é muito pequeno, cerca de 40 por ano, apenas.
Já o também cardiologista, Milton Néier, vai mais além.
- Adultos esperam cerca de sete meses na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) e crianças, cerca de um ano para um transplante - explica o doutor.
Apesar de ser uma cirurgia simples, segundo Néier, o transplante cardíaco esbarra já na procura do doador, que deve ter até 30% a mais ou a menos do peso da pessoa que vai receber o órgão.
- Em estados do nordeste, como Recife, Maceió e Natal, por exemplo, existe uma central que leva o receptor ao encontro do órgão, o que facilita muito, diferente dos outros estados onde o órgão é que 'vai de um lugar a outro'- explica o médico que completa.
_ Se a família tentar optar por outro país, a espera é ainda mais extensa, porque o receptor só pode entrar na fila depois das pessoas daquele país.
Familiares e doares sofrem com a demora nos transplantes, que muitas vezes chegam tarde demais.
- A luta é árdua. A fila é extensa. E quando se consegue um doador, pode-se esbarrar em trâmites legais, como aconteceu com a gente -, desabafa o professor universitário Rafael Paim, que perdeu o filho Arthur, que tinha o quadro de hipoplasia das cavidades esquerdas do coração, ou seja, o não-desenvolvimento delas, em abril de 2006.
Depois de meses procurando um doador compatível ao bebê, foi encontrado um menino, em São Paulo, que já tinha a morte cerebral diagnosticada e todos os requisitos necessários para o transplante, inclusive a aprovação da própria família. Mas o que tinha que ser resolvido em prazo máximo de 24 horas, levou sete dias. Já era tarde demais.
O saldo, depois de mais de um ano da morte de Arthur, no entanto não é negativo. Rafael fundou uma ONG, a “Doe ação”, que tem a finalidade de ajudar às famílias que estão na fila de espera por transplantes e mesmo àquelas que desejam buscar informação sobre o assunto. São palestras, conteúdo virtual através do doeacao.org.br, TV interativa.
- Fazemos o possível para levar informação a todos -, diz.
Quanto aos planos para o futuro, o professor diz sem medo.
- Arthur foi uma lição. Quero ter, sim, outros filhos - finalizou




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