O Papel dos Profissionais da Saúde na Doação de Órgãos
Uma grande barreira para a concretização dos transplantes de órgãos e tecidos é a resistência oferecida por profissionais de saúde, principalmente aqueles que trabalham em unidades de terapia intensiva, em participar efetivamente das etapas mais críticas da procura e captação de órgãos que ocorrem nesses locais. A relutância em agir resulta muitas vezes na falta de identificação de potenciais doadores em Morte Encefálica e, por conseguinte, em processos de doação nunca iniciados.Muitos fatores inibem o maior envolvimento dos profissionais da saúde em tomar parte ativa no processo de procura e captação de órgãos e tecidos. Talvez, a principal causa do desinteresse pelo processo seja a falta de experiência e treinamento para o manejo do difícil momento da solicitação de órgãos e tecidos, diante de familiares confrontados com a morte súbita de um ente querido. Esses profissionais, muitas vezes, não estão preparados para conduzir os eventos por desconhecerem detalhes importantes dos procedimentos, ou por não estarem aptos para reagir com suas próprias percepções em relação com a morte, em sentido amplo, e, em relação com a doação de órgãos, especificamente. Informações incompletas, ou incorretas, juntamente com sentimentos ambíguos transmitidos aos familiares, afetam negativamente o desenrolar do processo, frustrando muitas doações.Freqüentemente, também por razões pessoais, os profissionais de saúde consideram que toda complexidade do processo da procura e captação de órgãos e tecidos para transplante não compensa o esforço e a responsabilidade legal e ética perante o procedimento, assim como, o tempo empregado e a remuneração recebida. Via de regra, igualmente, médicos e enfermeiros avaliam que a solicitação da remoção dos órgãos e tecidos pressupõe uma intrusão desmedida na vida dos familiares do paciente falecido, receando inclusive aumentar-lhes a dor com o pedido.Sejam quais forem as razões para as dificuldades encontradas pelos profissionais de saúde para o encaminhamento adequado das doações, o fato é que os pacientes aguardando transplantes, como o de coração, fígado, rins e córneas, por exemplo, e a sociedade como um todo, necessitam urgentemente do incremento das doações de órgãos e tecidos para a redução das filas de espera, sendo imprescindível o auxílio diligente dessas pessoas. Para isso, as atitudes das equipes de saúde envolvidas com a captação de órgãos e tecidos devem ser dirigidas a movimentos que culminem na transformação da tragédia da morte de um indivíduo em uma oportunidade de consolo da família, oferecendo vida a outros.Alguns princípios devem orientar o comportamento dos profissionais de saúde durante o processo de solicitação de órgãos e tecidos para transplante. Em primeiro lugar, é importante que o médico ou enfermeiro reconheçam as emoções dos afligidos, qualificando-as, e respondendo-as de maneira adequada. Entre essas reações, estão a negação e a ira. É necessário dispor de informações corretas sobre as relações entre o falecido e os demais membros da família. É importante falar do aspecto clínico e físico que se encontra o falecido, evitando que fantasias venham desequilibrar mais o já vulnerável estado psíquico das pessoas. Ter a visão da situação é importante, pois, muitas vezes, parece um sonho ruim que se transforma em realidade, esta, mesmo dolorosa, mais controlável que a fantasia. Assim, é necessário fazer, de um modo sensível, que os familiares recebam a notícia má e entendam a realidade do falecimento. Essa informação deve ser dada de uma forma simples e sincera, evitando a linguagem eufemística. Devem ser evitados conceitos e terminologias clínicas difíceis, substituindo-as por analogias fáceis. Os acontecimentos relacionados com a morte súbita de um ente querido podem produzir profundos sentimentos de desespero. É importante ter paciência, proporcionando ao familiar total liberdade para expressar sua dor. Também, é preciso que um espaço adequado seja disponível no ambiente, para que a dor possa ser expressada e convivida com liberdade pelos familiares. Deve-se permitir, e mesmo estimular, que os familiares se expressem por meio de perguntas, as quais devem ser respondidas honestamente, demonstrando-se que seus problemas são mais importantes do que qualquer órgão doado. Procurar descobrir quais são os familiares realmente importantes para a assinatura da autorização, perguntando-lhes se estão realmente de acordo, pois, freqüentemente, pessoas dominantes na família tomam iniciativas que não cabem exatamente a elas. A petição deve ser dirigida ao familiar mais próximo, cônjuge, primeiro ascendente ou descendente, com maior poder de decisão. Quando a família está inflexível, deve-se comunicar que sua decisão será respeitada e que se agradece a consideração.O momento mais crítico para a obtenção de órgãos e tecidos para transplante é, portanto, o da solicitação. Nesse instante, é preciso julgar as possibilidades de êxito antes da petição. Nunca se deve falar da doação antes que a família tenha assimilado que o ente querido esteja morto. Para isso, é necessário que o conceito de Morte Encefálica seja claramente discutido com os familiares. Também importante é a explanação do que vai acontecer com o corpo após a remoção dos órgãos e tecidos, referindo que ficará completamente restaurado externamente, a ponto de ser possível o velório com corpo presente.Os transplantes, afinal, se tornaram uma realidade para o tratamento de pacientes portadores de afecções terminais de diversos órgãos e tecidos. No presente, um dos principais óbices para um mais abrangente aproveitamento da técnica é, sem dúvida, a escassez de órgãos e tecidos, cuja disponibilidade depende não apenas da organização de centrais éticas de procura e captação, mas, também, da educação e conscientização das pessoas para o processo. Entre essas, evidentemente, estão os profissionais de saúde, principalmente, médicos e enfermeiros da UTI, a linha de frente dos acontecimentos.
Texto do Portal de Serviços e Informações do Governo do Paraná, enviado pela colaboradora do Doeação no Paraná, Juliana Kania.
Abraços
Rafael



